A versão defendida por Margarita Robles sobre a informação que o Governo tinha antes da crise migratória de Ceuta ficou sem apoios públicos dentro do Executivo. O ministro de Política Territorial e responsável pelo comando único, Ángel Víctor Torres, apoiou Fernando Grande-Marlaska e negou que existisse uma comunicação que antecipasse a chegada de dezenas de milhares de pessoas.
Torres se junta assim à posição expressa pelo Interior, pela Delegação do Governo em Ceuta e fontes da Moncloa. Frente a eles, a ministra da Defesa mantém que o CNI comunicou no dia 29 de julho a existência de uma convocatória para tentar entrar nadando na cidade autônoma no dia seguinte.
A controvérsia afeta a duas questões diferentes: se existiu algum aviso prévio sobre essa convocatória e se a informação disponível permitia antecipar as dimensões que acabaria alcançando a entrada do dia 30 de julho.
Torres apoia Marlaska: "Não houve comunicação"
Ángel Víctor Torres afirmou que Marlaska foi "claro" ao negar que os serviços de informação tivessem antecipado uma entrada como a que finalmente ocorreu.
"Não houve nenhuma comunicação de que iríamos ter uma chegada de dezenas de milhares de pessoas", assegurou durante uma entrevista na Cadena SER.
O ministro reconheceu que durante os dias anteriores se reportava diariamente a situação de Ceuta e que havia sido registrado um aumento de cerca de mil entradas em uma semana. No entanto, sustenta que essas comunicações não advertiam da chegada de dezenas de milhares de pessoas.
"Se nos tivesse chegado, a atuação teria sido outra", afirmou Torres.
Robles sustenta que o CNI avisou no dia 29 de julho
A versão de Margarita Robles é diferente. Durante sua comparecência perante a Comissão de Defesa, a ministra assegurou que os 25 agentes do CNI destinados em Ceuta haviam realizado o trabalho que lhes cabia e compartilhado suas análises com as Forças de Segurança e a Delegação do Governo.
Robles concretizou que no dia 29 de julho os membros do serviço de inteligência "informaram na Delegação do Governo" sobre uma convocatória para tentar entrar nadando no dia seguinte, aproveitando uma festividade em Marrocos.
A titular da Defesa também ressaltou que as comunicações dos serviços de inteligência não têm necessariamente que adotar a forma de um relatório escrito.
A sua afirmação não equivale a sustentar que o CNI teria calculado que dezenas de milhares de pessoas cruzariam a fronteira. Sim implica, no entanto, que existiu uma comunicação prévia sobre uma convocação concreta.
Moncloa nega até que houvesse um aviso oral
O alcance do choque aumentou depois que fontes da Moncloa citadas pelo elDiario.es negaram tanto a existência de relatórios escritos como de avisos orais do CNI à Delegação ou a qualquer integrante do Executivo.
Desde a Presidência atribuíram as palavras de Robles a uma possível má explicação e asseguraram que não consta nenhuma chamada do CNI ao Governo nos termos descritos pela ministra. Esta negativa sim afeta diretamente a comunicação que Robles situa em 29 de julho.
A Delegação do Governo em Ceuta também assegurou que não havia recebido nenhum relatório que advertisse sobre o que aconteceria. Reconheceu que transmitia os dados diários sobre o aumento de entradas por via marítima, mas sustentou que nenhum permitia antecipar o ocorrido.
As diferentes versões já haviam aberto um choque dentro do Governo pelos avisos do CNI. O respaldo de Torres a Marlaska amplia agora o isolamento político da Defesa.
Avisar de uma convocação não é antecipar a magnitude
A aparente contradição requer distinguir dois níveis. É possível que os serviços de inteligência detectassem uma convocação em redes sociais sem poder calcular que desembocaria em uma entrada de dimensões excepcionais.
Por isso, a afirmação de Torres sobre a ausência de um alerta que antecipasse dezenas de milhares de chegadas não desmente por si só que pudesse existir uma comunicação menor. O conflito direto aparece quando Moncloa nega também que conste o aviso oral descrito por Robles.
Continua sem se esclarecer, portanto, se essa comunicação de 29 de julho se produziu, quem a recebeu, qual foi seu conteúdo exato e que avaliação fizeram as autoridades encarregadas da segurança de Ceuta.
Torres reduz o "chegamos tarde" a uma avaliação de Robles
O enfrentamento não se limita ao CNI. Robles também pediu desculpas aos ceutíes e reconheceu que o Governo havia chegado tarde porque a população seguia sofrendo.
Torres enquadrou essas palavras em uma "reflexão própria" da ministra. Embora admita que as atuações sempre podem ser melhoradas, defende o esforço realizado pelo Executivo diante de uma crise de uma complexidade extraordinária.
O País informa de um forte mal-estar entre vários ministros pelas declarações de Robles e situa a discrepância no núcleo mais próximo de Pedro Sánchez. Não consta, no entanto, que o presidente tenha exigido uma retificação nem que o choque vá produzir consequências imediatas.
A próxima explicação determinante chegará com a comparecência de Marlaska no Congresso. O ministro deverá precisar se nega apenas que pudesse antecipar a magnitude da entrada ou também que o Interior conhecesse a convocação mencionada por Robles.