A Universidade de Gante decidiu afastar temporariamente de suas funções um de seus pesquisadores no contexto de um processo disciplinar aberto contra ele, depois que este acusou de plágio o sociólogo e professor britânico de Cambridge Jason Arday, encontrado sem vida na semana passada em sua residência em Battersea, no sul de Londres.
"Como parte deste processo, a universidade está avaliando se existem motivos suficientes para remeter o caso ao órgão disciplinar competente para seu exame posterior. À espera dos resultados desta investigação preliminar, a Universidade de Gante suspendeu o membro do pessoal como medida cautelar", afirmou em um comunicado.
A instituição acadêmica havia manifestado no dia anterior sua comoção pelo falecimento de Arday —que continua sob investigação por parte das autoridades britânicas— e transmitiu suas condolências a seus entes queridos, amizades e alunos.
"A Universidade de Gante defende o respeito à dignidade humana e se opõe à discriminação, ao ódio e ao racismo. Concedemos grande importância à liberdade acadêmica e ao debate acadêmico livre, mesmo quando opiniões controversas são expressas. No entanto, essa liberdade não é ilimitada; implica responsabilidade e pode ser restringida para proteger os direitos dos outros", indicou.
Nessa linha, a universidade fez um apelo à "reflexão" em razão dos acontecimentos. "Esperamos que o que aconteceu sirva de aprendizado sobre como nos tratamos uns aos outros, tanto dentro quanto fora do âmbito acadêmico, especialmente quando as pessoas estão envolvidas em controvérsias públicas", acrescentou.
Embora a Universidade de Gante não tenha tornado público o nome do pesquisador, este confirmou por conta própria nas redes sociais a decisão adotada. "Acabei de ser suspenso pela Universidade de Gante. Quase com certeza serei demitido. A decisão foi tomada pela reitora Petra De Sutter, uma ex-líder do Partido Verde", indicou Nathan Cofnas nas redes sociais.
O caso de Jason Arday
Arday, de 41 anos, apresentou sua demissão como professor de Sociologia da educação em Cambridge após se ver envolvido em acusações de plágio. Sua designação como o professor negro mais jovem na história da universidade, com 37 anos em 2023, foi celebrada então como um importante avanço progressista.
Tanto ele quanto sua família denunciaram que havia sido objeto de uma forte campanha de assédio midiático depois que Cofnas publicou em seu blog que grande parte de sua tese de doutorado continha fragmentos copiados de outros autores, após submetê-la a um programa de detecção de plágio.
Cofnas, descrito como "realista da raça" e de nacionalidade americana, divulgou um ensaio em seu blog no qual sustentava que, se apenas a meritocracia regesse, as pessoas negras "desapareceriam de quase todos os cargos de alto perfil fora do âmbito esportivo e do entretenimento". Em julho de 2024, o Emmanuel College —pertencente à Universidade de Cambridge— o expulsou alegando que seus textos eram incompatíveis com seus princípios em matéria de diversidade.
Arday reconheceu falhas em seu trabalho e declarou ao jornal 'The Times' que assumia sua responsabilidade, embora rejeitasse as acusações de plágio. "Desde que cheguei a Cambridge, houve uma campanha muito bem orquestrada e coordenada para me destituir do meu cargo", disse o acadêmico.
O professor aludiu a "motivações raciais" e afirmou ter se tornado o "alvo das críticas" pelas políticas de diversidade, equidade e inclusão (DEI) nas universidades, depois que uma revisão realizada no início deste ano pela Universidade John Moores de Liverpool, onde obteve seu doutorado, confirmou a validade da concessão de seu título.
Cofnas também questionou aspectos da biografia de Arday —diagnosticado com autismo na infância e que carregou a tocha olímpica nos Jogos de Londres de 2012— relacionados a uma arrecadação de fundos para fins beneficentes e com seus feitos em corridas de maratona.
A Universidade de Cambridge comunicou no início de agosto que abriria uma investigação interna após receber "novas informações" sobre suas credenciais acadêmicas e nomeações, bem como sobre "várias queixas" por má conduta. Pouco depois, Arday apresentou sua renúncia.
A ONG Good Law Project denunciou que em apenas 22 dias foram publicadas mais de 240 informações em diferentes meios —muitas delas na imprensa sensacionalista— sobre as acusações. "As histórias sobre Jason geravam cliques e até meios como 'The Times' publicaram anúncios pagos para seus artigos", criticou.
Em resposta, centenas de pessoas se concentraram esta semana na Praça de Trafalgar, em Londres, convocadas pela organização Stand Up to Racism (De pé contra o racismo, em espanhol) para prestar tributo a Jason Arday e denunciar a campanha de ódio racial dirigida contra ele.