Alemanha sai da cabeça com menos austeridade e mais gasto militar (e agora propõe cortes)

O gigante europeu reorienta sua histórica posição de rigor fiscal com mais dívida e investimento no setor de defesa

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El canciller alemán, Friedrich Merz, a su llegada a la feria aeronáutica ILA de Berlín.  Europa Press/Contacto/Robert Schmiegelt

El canciller alemán, Friedrich Merz, a su llegada a la feria aeronáutica ILA de Berlín. Europa Press/Contacto/Robert Schmiegelt

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Após dois anos de recessão e um crescimento de apenas 0,2% em 2025, a economia alemã começa a mostrar sinais de recuperação. Os desafios estruturais que sua indústria enfrenta e as dificuldades próprias da atual situação geopolítica persistem. Mas, paradoxalmente em um contexto de maior tensão para os custos energéticos, o gigante europeu começa a emitir sinais de otimismo.

O PIB avançou 0,4% durante o primeiro trimestre de 2026 e outro 0,3% no segundo, segundo a última revisão do Escritório Federal de Estatística alemão (Destatis). Entre abril e junho, a economia cresceu 1% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Por trás da recuperação aparece uma mudança profunda na política econômica alemã. Berlim abriu a porta para aumentar seus níveis de dívida e negligenciar o déficit público do rigor fiscal histórico.

O que a Alemanha fez para sair da crise?

A resposta da economia alemã se deve, em boa medida, aos estímulos fiscais aprovados pelo Governo de Friedrich Merz, que apostou no financiamento de grandes investimentos em infraestruturas e ampliou os gastos em defesa fora dos limites ordinários.

A queda do gigante europeu se deveu, ao menos em parte, ao abandono dessa matéria. "Nos últimos anos tinha negligenciado os investimentos em infraestruturas, redes energéticas, tecnologia... em prol da redução da dívida e do déficit público", comenta para DEMÓCRATA o diretor de Conjuntura Econômica da Funcas, Raymond Torres.

Merz lançou um importante plano de investimentos, centrado fundamentalmente no setor de defesa, que conseguiu mobilizar o setor privado. Desde 2024, o investimento estrangeiro cresceu 80% no país.

A indústria é a mais beneficiada por essa transferência de recursos para o setor militar. "Não é que as fábricas de automóveis estejam se reestruturando, mas aproveitam esses projetos de investimento", aponta Torres.

O orçamento do Ministério da Defesa aumentou de 62,4 bilhões de euros em 2025 para 82,7 bilhões em 2026. A essa quantia somam-se 25,5 bilhões provenientes do fundo especial das Forças Armadas.

O objetivo vai além. O projeto orçamentário para 2027 eleva para 109,7 bilhões o orçamento do Ministério da Defesa e o Governo pretende que o gasto contabilizável pela OTAN passe de 2,8% do PIB em 2026 para 3,5% em 2029.

Tudo tem um custo

Alemanha fechou 2025 com uma dívida pública equivalente a 63,5% do PIB e um déficit de 2,7%, segundo os dados utilizados pela Comissão Europeia. Bruxelas calcula que o déficit aumentará até 3,7% do PIB em 2026 e 4,1% em 2027. A dívida, enquanto isso, passaria para 65,8% este ano e para 68% em 2027.

O Bundesbank contempla um deterioro ainda maior a médio prazo. Sua previsão de junho aponta que o déficit poderia se aproximar de 5% do PIB em 2028 e a dívida rondaria então os 70%.

De qualquer forma, a Alemanha parte de uma posição mais favorável do que outras grandes economias europeias e mantém a máxima classificação de crédito. Além disso, em relação às normas europeias, o país se beneficia da cláusula de salvaguarda europeia que permite absorver o aumento do gasto militar na hora de controlar o déficit.

Essa mudança coincide com condições financeiras muito diferentes das da década anterior. A Alemanha, que chegou a se financiar a taxas negativas, apresenta uma rentabilidade de seu título a dez anos em torno de 3%, perto dos máximos registrados por esse título durante os últimos doze meses.

De qualquer forma, Torres adverte que as tendências em dívida pública vão além da situação específica da Alemanha. "O que está fazendo com seus planos de investimento também é feito por outros países, o que pressiona para cima o recurso do mercado", explica.

Acontece nos Estados Unidos, no Japão e em outros países que têm necessidades estruturais como França ou Itália. Também a Espanha, aponta, embora em menor medida.

A inflação volta a 2,9% por causa da energia

A estimativa provisória do Destatis coloca a inflação de agosto em 2,9% ano a ano, em comparação com 2,8% de julho e 2,3% de junho. O principal responsável pelo último aumento é a energia. Seus preços aumentaram 10,5% ano a ano em agosto, após 8,3% em julho.

Para a Alemanha, a energia tem uma dimensão que supera o impacto sobre os lares. A química, a siderurgia e outras indústrias intensivas em consumo energético suportam há anos custos que condicionam sua competitividade em relação a outros centros de produção.

O golpe da invasão russa da Ucrânia, o fim do gás barato proveniente de Moscovo e o fechamento das nucleares forçaram um reexame do modelo energético alemão nos últimos anos, potencializando em boa medida a indústria renovável. Também as infraestruturas de gás natural liquefeito.

A ameaça da China

O gigante asiático, que há anos era um de seus grandes clientes, agora se apresenta como o grande competidor industrial e tecnológico da Alemanha. O automóvel é o melhor exemplo. "Os carros chineses entram na Europa a preços muito competitivos e adaptando seus motores elétricos, colocando em dúvida a liderança alemã", explica Torres.

Poucas empresas refletem melhor essa transformação que Volkswagen. O grupo acaba de aprovar um novo plano que contempla outros 50.000 cortes de emprego, incluindo cargos de direção, enquanto tenta recuperar competitividade.

O ajuste afeta também o produto. A Volkswagen pretende reduzir aproximadamente à metade sua gama e cortar em torno de 75% a complexidade de sua oferta até 2035. O grupo busca concentrar produção e elevar economias de escala enquanto adapta sua estratégia na China.

Não é um caso isolado

Outras firmas como BASF, Thyssenkrupp, ZF e Continental também ajustam suas equipes. BASF leva sua própria reestruturação em Ludwigshafen, um dos grandes complexos químicos europeus. Entre janeiro de 2024 e junho de 2026, reduziu sua equipe mundial em cerca de 7.000 pessoas. Em maio, caiu de 30.000 empregos equivalentes a tempo integral em Ludwigshafen pela primeira vez desde 1954.

A siderurgia apresenta uma situação similar. Thyssenkrupp Steel acordou uma reorganização que contempla cortar ou terceirizar cerca de 11.000 empregos.

A pressão se estende aos fornecedores do automóvel. ZF Friedrichshafen prevê reduzir entre 11.000 e 14.000 postos na Alemanha até o final de 2028, dentro de uma reorganização destinada a adaptar sua capacidade a uma demanda mais fraca e à transformação para o veículo elétrico.

Na Continental, sua divisão ContiTech acordou eliminar cerca de 3.000 empregos em todo o mundo, 1.600 deles na Alemanha, e transferir parte das atividades para localizações com estruturas de custos mais competitivas.

Não são situações idênticas, mas nelas convergem custos elevados, capacidade industrial excedente em determinados setores, competição internacional e grandes necessidades de investimento para transformar produtos e processos.

Depois do gasto chegam os cortes

A política expansiva traz ressacas. E os planos orçamentários começam a incorporar uma consolidação posterior. O Governo incorporou em sua planejamento necessidades de consolidação que alcançam cerca de 48.000 milhões de euros em 2030.

O sistema de pensões está no ponto de mira. O Governo prevê reduzir em 1.000 milhões de euros a contribuição federal ao sistema de pensões em 2027 e sinaliza medidas de economia no seguro de saúde desde esse mesmo ano.

A Alemanha já executou reformas no sistema de pensões, mas enfrenta as mesmas dinâmicas de envelhecimento da população que outras economias europeias. Sem novas medidas, o Bundesbank estima que a taxa de contribuição ao sistema de pensões teria que passar dos 18,6% atuais para cerca de 20% em 2028.

E, por enquanto, cresce abaixo da Europa

Apesar de tirar a Alemanha do estancamento, o plano de investimentos ainda não resolve os problemas de fundo da economia alemã. A Comissão Europeia prevê um crescimento de apenas 0,6% em 2026 e 0,9% em 2027.

As previsões do BBVA Research são mais otimistas. Acreditam que a Alemanha possa alcançar um avanço de 0,8% este ano e de 1,3% em 2027.

Os resultados desse plano de investimentos ditarão as futuras reformas que o país deve empreender.

"O raciocínio até agora do Governo Merz é, primeiro reativar a economia e depois ajustar para evitar desequilíbrios pronunciados nas contas públicas", raciocina Torres. "Até agora, puderam se permitir isso porque partiam de níveis de dívida e déficit muito controlados".

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